terça-feira, 21 de maio de 2024

Mar ternar

 A maternidade é um oceano em que às vezes a gente nada a deriva. E viramos meio náufragos de nós mesmos. Um tanto quanto mergulhados em buscar referências mas ao mesmo tempo sem ter referências pra onde se olhar.

(Não queria mais olhar pra essa dor. Ela parece um buraco. Um buraco onde quanto mais se olha mais se cava, mais funda fica. Não sei se eu ignorei essa dor por tantos anos que me desacostumei a perceber o quão funda ela pode ser. Ou se por estar, exatamente agora, com uma ferida aberta, eu sinta ou tenha a sensação do ardido que ela provoca.

São tantas camadas. Me senti nesses últimos tempos tão potente mas ao mesmo tempo tão frágil, exposta, machucada. Preciso olhar pra dentro e iluminar o que tem de verdadeiro, brilhante, bonito, real. Espontâneo. Corajoso. Corajoso não no sentido de fingir que não tem medo, corajoso no sentido de se permitir não ter medo. Se permitir ficar à vontade. Se permitir errar e reconhecer, se permitir tentar, se permitir viver mais leve. Cuidar do que eu sei que me cuida. Amparar o meu desamparo. Amparar em quem sabe ser colo.)

Não sei quanto tempo as feridas vão ficar abertas. Doídas. Expostas. Sensíveis. Lidar com a primeira infância, especialmente, é dos desafios mais difíceis. E torno a ela. E torno a mim. E torno às dores que vêm à tona e aos arrepios gelados que pensar sobre a vida nos induz a ter. Queria o conforto da paz sem pressa. Mas parece que ela só chega quando estou sozinha. Talvez seja esse um dos lugares de exercitar a vida. Muitas vezes solitária e intensa a ponto de doer demais. Intensa quase na medida da ferida aberta e ardendo. Mas talvez possível. Talvez.

Retomo do início: quase sempre o ponto mais difícil me parece a maternidade. Quase sempre a linha de raciocínio se volta à sensação de desamparo interior que culmina em feridas ardidíssimas e profundas. O desamparo é aprendido. O auto amparo também pode ser.

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