domingo, 29 de setembro de 2024

Outras palavras

 Tem uma música do Caetano que fala assim


Nem vem que não tem

Vem que tem coração tamanho trem

Como na palavra palavra a palavra estou em mim

E fora de mim quando você parece que não dá

Você diz que diz em silêncio 

O que eu não desejo ouvir

Tem me feito muito feliz 

Mas agora minha filha

Outras palavras...

Outras palavras...

Outras palavras

Hiperestesia Buarque voilá tu sais de cor

Tinjo-me romântico mas sou vadio computador 

Só que sofri tanto que grita porém daqui pra frente

Outras palavras

Outras palavras

terça-feira, 25 de junho de 2024

Corpo espaço


Hoje tive uma sensação parecida com um insight que tive depois de alguns meses de terapia. Lembro que, conforme as sessões iam passando, eu ia percebendo mais meu próprio espaço corporal e espacial: percebendo que eu era um corpo, também, e que esse corpo poderia ser intencional assim como a minha mente performava e formulava ideias e palavras.
Senti vontade de usar o corpo, porque era como se eu tivesse acabado de ganha-lo: ao liberar aos poucos os efeitos do controle da ansiedade sobre a mente, eu ia sentindo e vendo meu corpo no espaço e como ele ocupava esse espaço. que posições intencionalmente eu decidia por colocá-lo. Que detalhes dele eu queria dedicar mais tempo cuidando. O início da sensação de se sentir confortável em silêncio mesmo perto de outras pessoas porque quem eu era também estava nesse corpo em silêncio, e não apenas das palavras e ideias que saíam da minha mente quando conversava com as pessoas.
Eu também não precisava prestar tanta atenção na reação das pessoas ao meu redor porque a sensação de ter um corpo que carrega uma identidade delimitava uma segurança, uma linha que contornava um certo espaço pessoal, meu e de mais ninguém.
Hoje tive essa sensação após várias semanas me sentindo totalmente dissociada: extremamente ausente do corpo, extremamente vivendo e (sofrendo) na cabeça. Hoje alguns felizes momentos descontraídos me tiraram de lá e eu senti meu corpo novamente. Percebi o quanto não estava prestando atenção ao espaço que estava ocupando, o quanto eu estou descuidada quando o assunto é se habitar.
Mas no enfim, é isso: somos mais corpo que cabeça, mais existência que pensamento. Que essa existência tenha chances de existir, que ela saiba encontrar e ocupar espaços.

domingo, 2 de junho de 2024

Sobre o amor e seu trabalho misterioso

 hoje foi um dia em que eu fui em uma festa sobre toda maneira de amor vale a pena, toda maneira de amor valerá

e somado a isso, como tradição, me pego em uma comovida reflexão sobre a vida do meu filho que aumentará um número na idade amanhã.

todo mundo vem de duas famílias, pai e mãe, e todo mundo recebe muitas formas variadas de amor, inúmeras. a gente faz um mix dessas formas e tenta sintetizar em uma sensação de como é sentir esse amor, como é se sentir amado. mas tem formas que prevalecem e normalmente não são as melhores 

amar um filho é tanto que dói e a gente ama como a gente aprendeu

mas que sorte bonita se, no meio do caminho, a gente aprender outras formas de amar e ver isso brotar no nosso filho pq ele é feito de tantos braços que o amam que (ainda bem) muitas formas variadas chegam até ele.

eu não sei pq gosto tanto de falar sobre amor, ou sobre ser amado, mas eu sei que é uma questão que atravessa muitas outras por exemplo a passagem do amor de uma geração pra outra 

ainda bem que a gente muda, ainda bem que a gente pode aprender também a amar de novo e de novo e de novo, até que não precise mais de tantas palavras pra pensar em uma só. Amar. Talvez seja querer que o outro saiba que ele existe enorme pra gente. Mas cada um conta de um jeito, e no meio dessas tantas contações de história, várias partes se perdem no caminho e tem quem nem receba o começo do recado, mas o problema tá no caminho.

Que alegria poder vislumbrar mais de um caminho. A gente nunca vai aprender se existe um segredo pra dar e receber amor. Mas a gente vai vislumbrar 

terça-feira, 21 de maio de 2024

Mar ternar

 A maternidade é um oceano em que às vezes a gente nada a deriva. E viramos meio náufragos de nós mesmos. Um tanto quanto mergulhados em buscar referências mas ao mesmo tempo sem ter referências pra onde se olhar.

(Não queria mais olhar pra essa dor. Ela parece um buraco. Um buraco onde quanto mais se olha mais se cava, mais funda fica. Não sei se eu ignorei essa dor por tantos anos que me desacostumei a perceber o quão funda ela pode ser. Ou se por estar, exatamente agora, com uma ferida aberta, eu sinta ou tenha a sensação do ardido que ela provoca.

São tantas camadas. Me senti nesses últimos tempos tão potente mas ao mesmo tempo tão frágil, exposta, machucada. Preciso olhar pra dentro e iluminar o que tem de verdadeiro, brilhante, bonito, real. Espontâneo. Corajoso. Corajoso não no sentido de fingir que não tem medo, corajoso no sentido de se permitir não ter medo. Se permitir ficar à vontade. Se permitir errar e reconhecer, se permitir tentar, se permitir viver mais leve. Cuidar do que eu sei que me cuida. Amparar o meu desamparo. Amparar em quem sabe ser colo.)

Não sei quanto tempo as feridas vão ficar abertas. Doídas. Expostas. Sensíveis. Lidar com a primeira infância, especialmente, é dos desafios mais difíceis. E torno a ela. E torno a mim. E torno às dores que vêm à tona e aos arrepios gelados que pensar sobre a vida nos induz a ter. Queria o conforto da paz sem pressa. Mas parece que ela só chega quando estou sozinha. Talvez seja esse um dos lugares de exercitar a vida. Muitas vezes solitária e intensa a ponto de doer demais. Intensa quase na medida da ferida aberta e ardendo. Mas talvez possível. Talvez.

Retomo do início: quase sempre o ponto mais difícil me parece a maternidade. Quase sempre a linha de raciocínio se volta à sensação de desamparo interior que culmina em feridas ardidíssimas e profundas. O desamparo é aprendido. O auto amparo também pode ser.

domingo, 7 de abril de 2024

sobre re começos

dizem que enquanto a gente briga, e faz barulho, a gente quer estar
e quando isso deixar de acontecer, a vontade foi embora

não sei se a vida aceita a metáfora do barulho
ela é constantemente barulhenta
mas se o alternar de ciclos for equivalente ao silêncio, há vários
e esse silêncio seria um recomeço

mas me pego querendo fazer barulho sobre o "re" que acompanha essa palavra
na língua o "re" remete ao novamente
e não ao novo

refeito não é igual a feito
e talvez por isso refazer ou recomeçar tenha uma idéia de conserto
e não de início

consertar o que ficou nunca vai ser uma boa ideia
se tratando da vida
ela é rio que corre e não traz o que já correu
o rio tem mais a ver com início,
e ainda que sejam vários, é sempre um início:
a mesma água não passa pelo rio duas vezes.

barulho feito, que se imite então a água e nada de recomeço: que se celebrem inícios.

sexta-feira, 15 de março de 2024

 eu sei, sempre tive um pouco de melancolia

mas a nostalgia tem um quê que exacerba o fio da agonia

eu sei, sempre fui de me dar a profundidades quando a noite caía

mas a permanecer lá no fundo meio soterrada, é notícia

eu sei, talvez eu nem sempre tenha percebido

essa coisa de sentir a mais quando voltamos pras raízes

crescer é bom, conquistar o dia

sentir-se parte da natureza, sentir-se como guia

mas elas estarão lá, e sempre:

as memórias, as melancolias

a nostalgia, as veias das raízes

frias

mas vivas

sábado, 16 de setembro de 2023

 Há pessoas que nos inspiram e outras que nos expiram

Há as que nos inspiram nos trazendo pra perto de nós 

E há as que levam embora partes importantes que precisavam ter ficado 

Há as que tem a intenção de nos trazer de volta 

E há os que, sem saber, pela naturalidade e verdade que existem em si próprios, resgatam diamantes brilhantes que a gente nem lembrava mais que existia.


Queria conseguir enxergar sempre esse lado generoso da vida.

Queria ter a consciência de poder abrir a porta apenas pra quem pudesse vir somar, ou de saber fechá-la quando perceber que a sensação de bem estar já tiver ido embora.

Eu entendo e compreendo que é pra isso que estamos imersos na vida 

Mas às vezes o movimento poderia ser mais fácil, ou mais claro de se ler: que eu siga, ao menos, atenta aos bons sinais.